
Nos "interests" deste blog há o tema Fotografia.
Estou devendo uma pequena explicação sobre o porquê dele aqui.
Um sujeito que se diz escritor, humorista, letrista, redator de propaganda também é retratista?
Lá vai então.
Confesso que a minha primeira paixão, antes das palavrinhas, foram as imagens.
Gostava de fuçar as revistas do meu pai.
E especialmente o Jornal da Tarde que ele trazia à noite pra casa, conhecido pela utilização não-formal das fotos. Grande mérito do meu saudoso amigo da DPZ e ex-criador do JT, Murilo Felisberto.
Quando estava no ginásio do Colégio Bandeirantes tinha dois colegas de classe, o Walter Moraes e o Flávio Adas, que também eram entusiastas do P&B.
Tão entusiastas que hoje são fotógrafos profissionais.
Pedimos aos nossos pais de presente de Natal e/ou aniversários algo inusitado para quem pediria calças Soft Machine ou tênis All Star: três câmeras fotográficas.
O orçamento do meu velho não dava pra comprar uma Nikon F2, como eu desejava, mas ele acabou me dando uma ótima SLR para iniciantes: uma Asahi Pentax SP II.
Walter e Flávio tinham equipamento semelhante, se não me engano uma Ricoh e uma outra Pentax também.
Fazíamos tours fotográficos pela Vila Mariana e depois comparávamos nossos registros.
Na rua Estela, a do nosso colégio, havia um fotógrafo excelente, o Frederico Mielenhausen, que revelava e ampliava nosso material com ótimo critério.
Tempos depois, o Flávio montou um pequeno laboratório P&B no quarto dos fundos de sua casa.
O local prestou-se a nossas primeiras experiências imagéticas, estéticas e até sexuais.
Algumas colegas de classe inocentemente foram visitar o “lab” e acabaram sendo visitadas pelos fotógrafos...
Mas aí é uma outra história, deixemos para um outro rolo de filme.
O que importa é que meu amor pelo preto e branco subsiste até hoje.
Já trintão fiz uma campanha para o Bradesco numa agência de propaganda, como redator.
O conceito era “No dia a dia do Brasil tem Bradesco”: anúncios de página quádrupla na Veja.
Em cada página um clique de um grande fotógrafo brasileiro mostrando as fases da produção industrial, agrícola, pecuária etc.
De Sebastião Salgado a Cristiano Mascaro, passando por Pedro Martinelli, entre muitos outros talentos.
Eu adorava uma determinada foto do Salgado, que é a de uma prostituta, talvez peruana, ao lado de uma meninazinha inocente que come maçã do amor.
Pedi ao RTV da agência que contactasse a agente dele, pois queria comprar a foto de qualquer maneira.
Fui informado de que ele viria de Paris para uma exposição no MASP em dez dias.
E que traria uma ampliação especialmente para o criador da campanha.
Fui ao MASP no dia e recebi de suas mãos o meu objeto de desejo.
Salgado ainda assinou a obra na minha frente.
Embaraçado pela emoção cometi a gafe de lhe perguntar quanto custaria o trabalho.
Ele deu de ombros e disse:
- Tome alguma coisa, depois ligue pra minha agente e combine com ela.
No dia seguinte, chegando à agência chamei a simpática moça.
O preço que ela me informou pela fotografia quase me fez cair da cadeira. Suando na nuca, disse-lhe:
- Olhe, eu simplesmente amo o trabalho do Sebastião. AMO. Mas sou assalariado, não tenho como desembolsar um valor assim. Nem vou regatear porque o trabalho dele vale mais do que tudo mesmo. Peço-lhe mil perdões e a ele idem, mas vou mandar a foto de volta.
Ela educadamente concordou.
Minutos depois liga o Salgado.
- Como assim não vai ficar com a foto? Eu trouxe ela de Paris dentro de um canudo na mala pra você!
Estava numa enrascada. Talvez vender algum bem, pedir uma dinheiro emprestado à minha madrinha? Fingir que o telefone emudecera?
- Vamos fazer o seguinte – cortou o único fotógrafo do mundo que registrou o atentado a Ronald Reagan – meu pai ajuda uma dupla caipira humilde no interior. Eu fotografei os dois. Mas precisamos fazer o fotolito pro poster. Você paga o fotolito e a foto da menina é sua, certo?
Concordei sem titubeio.
Na mesma hora procurei o produtor gráfico da agência. Disse-lhe que precisava do fotolito de uma fotografia com as características que o mestre me passara.
- Quanto custa o serviço? – quis saber.
- Tem um custozinho aí esse fotolito – ele balbuciou entredentes – mas a gente consegue no vasco pra você, que é funcionário.
A foto do Sebastião Salgado hoje está em destaque na sala de minha casa. E representa a minha reverência à arte que, para mim, é a mais próxima da Literatura e da Música, minhas amigas de sempre.
Isso porque vejo a Literatura como uma canção. E a Fotografia com uma canção sem letra: pura música instrumental.
Boa audição.

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